Informação e Mobilidade

Sem trem, o país não vai e não vem – José Manoel Ferreira Gonçalves

Sem trem, o país não vai e não vem – José Manoel Ferreira Gonçalves

sobretrilhos-josemanoelNão se pode mais continuar aceitando o caos logístico ocasionado pela falta de transporte sobre trilhos no Brasil. O rodoviarismo, apesar de poluente letal e perverso, está arraigado nos costumes, hábitos e no inconsciente coletivo do brasileiro. Assim, ao nos posicionarmos contra ele e contra o lobby automobilístico plutocrático, temos enfrentado fortes reações e pressões. Mas não nos é dado o acovardamento.

Trata-se de uma questão de Estado, e não de governo, mas que passa necessariamente pela política. E o ser político consciente filia-se a uma ideologia, é dizer, a um lado. Pessoalmente, tenho um lado, que comungo com a grande maioria dos integrantes da entidade que presido, a FerroFrente. Sim, é preciso deixar claro, a Ferrofrente tem um lado, e se orgulha de defendê-lo com a veemência que requer a causa, a saber: os interesses do setor cuja desatenção já quase secular nos impõe o atraso, a carestia e a imobilidade.

Ao assumirmos o lado da luta pelo salto de qualidade administrativa, gestão e construção de políticas ferroviárias responsáveis, não o fazemos com ingenuidade, supondo um caminho fácil. Conhecemos as resistências, e isso mais nos lança na luta pelo modal que nos traz vantagens competitivas inegáveis, barateia os alimentos do trabalhador, reduz vertiginosamente a mortandade nas estradas e ajuda nas questões ambientais e de saúde, notadamente o câncer de pulmão provocado pela poluição dos ônibus.

“O acesso ao transporte é fundamental em nossa configuração social…”

Neste momento nacional grave, somos ainda mais instados a nadar contra a maré do atraso. Defendemos a necessidade de uma virada, por meio de novas eleições gerais, das quais se excluam os atuais “fichas-sujas”. Que os novos governantes, respaldados pelo voto direto, possam assumir o imperativo da continuidade do combate à corrupção e da punição de todos que forem julgados culpados, dentro do estado democrático de direito, respeitada a ampla defesa e o contraditório. Nosso Poder Judiciário precisa se recuperar, apresentando maior celeridade, menos engavetamentos e, sobretudo, julgando todos e não apenas um ou outro lado ideológico ou partido político.

Sabemos que essa não é a posição da maioria no momento. Mas a democracia não é ciência exata, mormente onde os meios midiáticos escolhem um lado a malferem outro. A corrupção se dá à larga tanto na ferrovia Norte-Sul quanto no metrô paulista, qualquer maniqueísmo ou demonização de qualquer dos lados demonstra inconsequência. Sem consciência e clareza política, nossa causa estará enredada. Por isso, entendemos essas considerações como pertinentes na abordagem do ferroviarismo. Nossa sociedade é brutalmente desigual e injusta e nada mais justo que defender princípios garantidos no contexto dos princípios básicos.

Faltam ao país bons projetos, e há desmandos e desvios lamentáveis não só no governo que ora agoniza, mas há décadas, muitas décadas.

O direito ao transporte é de fulcral importância em qualquer sociedade moderna e deve ser cotidianamente garantido e aperfeiçoado pelo Estado. O acesso ao transporte é fundamental em nossa configuração social, pois se relaciona aos mais diversos direitos que são assegurados pela Declaração Universal dos Direitos Humanos e pela Constituição Federal de 1988. Por essa razão, sua existência e qualidade devem ser cobradas por todos os cidadãos, sejam usuários de transporte público ou não.

O direito ao transporte é direito-meio, porque condiciona o acesso aos demais direitos, se constituindo em elemento de vital importância para as condições necessárias à vida digna. Para o acesso à rede pública de saúde, por exemplo, é necessário algum meio de transporte. O mesmo se aplica ao acesso à educação, cultura e lazer; à liberdade de ir e vir, de chegar ao trabalho, entre tantos outros direitos que requerem deslocamento para então serem exercidos e usufruídos.

Pelo bem do Brasil sustentável sobre trilhos, vamos, portanto, lutar sem tréguas.

                                                              José Manoel Ferreira Gonçalves – Professor doutor                                em engenharia, advogado, jornalista, cientista político, coordena o curso de pós-graduação em infraestrutura e preside a FerroFrente.
Originalmente publicado na Revista SOBRETRILHOS – Ano 2 – Edição 5

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Revista híbrida com abordagens jornalísticas e técnicas. A circulação é controlada e dirigida a todos os segmentos de transporte de passageiros e logística. Aposta-se em uma linha editorial que vá além dos trilhos, trazendo informações e conceitos sobre infraestrutura, intermodalidade, urbanização e cidades inteligentes.

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