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Projeto para cobrir linha férrea é um equívoco

Projeto para cobrir linha férrea é um equívoco

O sistema de trens precisa, sim, de melhorias. Não estéticas, mas operacionais. Existem propostas para revitalizar a linha, dando-lhe padrão de metrô e mais conforto.

O periódico O Globo publicou um artigo na quinta-feira (30) sobre o novo e audacioso projeto ferroviário do prefeito carioca. Enquanto os hospitais do município agonizam, as ruas estão cada vez mais esburacadas e mal iluminadas, logradouros exibem sinais de má conservação e calçadas são tomadas por camelôs, o prefeito Marcelo Crivella anuncia um mirabolante projeto para construir uma “cidade suspensa” sobre a linha férrea, inicialmente entre a Central do Brasil e a Estação da Leopoldina. O plano seria erguer, sobre a ferrovia, prédios comerciais e residenciais, numa área de um milhão de metros quadrados. Para tentar viabilizar a ideia, Crivella assinou um acordo com a empresa russa Olympic City Group, que fará — segundo a prefeitura, sem custos para o município — uma proposta de parceria público-privada (PPP) para o empreendimento. O estudo deve ficar pronto em seis meses.

Edificio da Central do Brasil

O custo da obra é estimado em R$ 8 bilhões, aproximando-se do valor da Linha 4 do metrô (General Osório-Jardim Oceânico), que tem 16 quilômetros de túneis, seis estações, e consumiu cerca de R$ 10 bilhões. Pelos planos de Crivella, os recursos seriam viabilizados por meio de uma PPP semelhante à do Porto Maravilha, com emissão dos chamados Certificados de Potencial Adicional de Construção (Cepacs). Em outras palavras, incorporadores pagariam para construir além do permitido pela legislação.

Embora tenha combinado já com os russos, a prefeitura terá de se entender também com a União, proprietária de áreas incluídas no projeto; com o estado, que é o poder concedente da ferrovia, e com a SuperVia, que ganhou concessão para explorar a linha e as estações.

Além disso, convém lembrar que os Cepacs não são uma solução mágica para a recorrente falta de recursos destinados a obras de infraestrutura. De fato, essa foi a estratégia adotada pela prefeitura no Porto, onde uma área histórica e degradada foi revitalizada às vésperas da Olimpíada, transformando-se num dos novos polos de lazer e turismo do Rio, ainda com um vasto potencial a ser explorado, principalmente no que diz respeito à construção de moradias.

Mesmo assim, a PPP não ficou imune à crise. Sem conseguir vender os Cepacs, a Caixa parou de fazer repasses à concessionária, que precisou interromper temporariamente a manutenção da área. Nesse período, os serviços foram assumidos pela prefeitura. Ou seja, não existe custo zero.

O sistema de trens do Rio precisa, sim, de melhorias, não estéticas, mas operacionais. Existem projetos para revitalizar a linha, dando-lhe padrão de metrô e aumentando o conforto, o que poderia recuperar a importância que a ferrovia já teve. Cobri-la, certamente, não seria a solução.

Antes de assumir a prefeitura do Rio, Crivella disse que o ciclo das grandes obras havia chegado ao fim, e que era hora de “cuidar das pessoas”. O faraônico projeto da Central do Brasil não se encaixa nesse discurso. Mais sensato seria cuidar das pessoas que procuram — e não encontram — atendimento nos débeis hospitais da cidade.

 

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