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Prioridade às redes estruturantes sobre trilhos – Emiliano Affonso

Prioridade às redes estruturantes sobre trilhos – Emiliano Affonso

Foto Emiliano AffonsoAs grandes cidades brasileiras foram transformadas em espaços para a circulação do automóvel, alardeado como alternativa eficiente de transporte. O sistema viário foi adaptado e ampliado e órgãos foram criados para procurar, sem sucesso, garantir boas condições de fluidez. Os sistemas sobre trilhos foram deixados em segundo plano e com poucos investimentos, tornando-se insuficientes para atender à demanda.

Com a carência de transporte coletivo e os incentivos dados para a compra e posse de carros e motos, o uso do transporte individual foi intensificado, aumentado os congestionamentos, os acidentes e a poluição.

Estamos na contramão das metrópoles mundiais, que estão mantendo sua mobilidade por meio de investimentos públicos nas redes estruturadoras de média e de alta capacidade sobre trilhos, integradas entre si e aos demais modos de transporte coletivos e individuais.

Alguns avanços ocorreram, porém até hoje os planos de transporte não levam em consideração o deslocamento “porta a porta” e pecam pela falta de racionalização entre os sistemas.

Na região metropolitana de São Paulo, onde quase metade das viagens motorizadas são feitas por meio do transporte individual e um terço a pé, não se admite a falta de um plano de circulação que leve em consideração todas as modalidades e a necessidade da população, que é sair de sua casa e chegar ao seu destino final utilizando os meios à sua disposição, sejam eles a calçada, a bicicleta, a moto, o carro ou o transporte público.

A situação que vivemos é crítica, nossas calçadas perderam espaço físico e foram esquecidas como um meio de circulação de pessoas. É uma verdadeira aventura utilizá-las, pois além da falta de conservação, grande parte delas foi transformada em acesso para os automóveis, criando obstáculos aos pedestres e sendo responsáveis por mais de 20% dos acidentes registrados.

As principais artérias viárias estão congestionadas, temos poucos corredores de ônibus, nenhum de Veículo Leve sobre Trilho – VLT e uma rede de metrô muito abaixo da necessidade.

Estamos vivendo um momento de crise política com recessão econômica e perda de empregos, porém a alegação de que investir em uma rede estruturadora de transporte sobre trilhos é cara e que nosso país não tem condições de fazê-lo é falsa. Sua construção, além de requalificar as cidades, torná-las mais eficientes e diminuir a exclusão social,  propicia a retomada do crescimento e retorno econômico, nos três níveis de governo, em montante maior do que o investido.

Dispor de sistemas metroferroviários compatíveis com as necessidades das cidades e com a renda da população garante a movimentação das pessoas de forma rápida e eficiente, torna as empresas nelas instaladas mais competitivas e, seus funcionários, mais produtivos, formando um ciclo virtuoso de desenvolvimento com geração de empregos e renda, qualidade de vida e inclusão social.

Não precisamos forrar a nossa cidade com uma grande infraestrutura de transporte metroferroviário; precisamos, isso sim, investir em redes estruturadoras equilibradas e racionalizar o uso de todos os meios de transporte, sejam eles coletivos ou individuais.

Medidas paliativas podem e devem ser tomadas: as cidades que construíram uma boa mobilidade têm políticas de estacionamento que incentivam a integração dos automóveis, fora do centro expandido, aos corredores de ônibus, trens ou metrôs e desmotivam o estacionamento nas áreas centrais. Ações nos diversos modais, com melhoria no seu desempenho, priorização do transporte coletivo, bem como sua integração racional, também são medidas que podem e devem ser tomadas para mitigar o trânsito e seus efeitos no meio ambiente, junto com políticas de fiscalização veicular sérias e consistentes.

Medidas como escalonamento de horários de trabalho, extensão do horário de funcionamento de supermercados, shoppings e serviços implantação do rodízio já foram tomadas; no entanto, não aproveitamos este fôlego e estamos caminhando para a inviabilidade econômica de nossas metrópoles.

Estamos sofrendo, mudamos os nossos horários, saindo de casa cada dia mais cedo e voltando cada vez mais tarde. Gastamos mais, perdemos produtividade e tempo para o lazer e convívio com nossas famílias e amigos.

A obtenção de uma boa mobilidade necessita da participação dos três níveis de governo para a implantação de uma malha de transporte público baseada em sistemas de alta e média capacidade, integrada ao transporte individual e às linhas de ônibus, que devem ser racionalizadas, eliminando as sobreposições, e possuir um sistema de controle centralizado que informe e oriente os usuários.

Para tanto, precisamos de vontade política e recursos cativos que permitam a implantação dos planos e melhorias, independentemente de partidos políticos e dos governantes de plantão e com a participação intensa do Governo Federal, com recursos a fundo perdido e financiamentos aos governos locais.

Emiliano Stanislau Affonso Neto – Presidente da AEAMESP
Artigo originalmente publicado na Revista SOBRETRILHOS – Ano 2 – Edição 5

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Revista híbrida com abordagens jornalísticas e técnicas. A circulação é controlada e dirigida a todos os segmentos de transporte de passageiros e logística. Aposta-se em uma linha editorial que vá além dos trilhos, trazendo informações e conceitos sobre infraestrutura, intermodalidade, urbanização e cidades inteligentes.

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