Informação e Mobilidade

Metronização dos sistemas de Transporte Coletivo e recusos para o custeio da operação com qualidade – Luiz Carlos Mantovani Néspoli

Metronização dos sistemas de Transporte Coletivo e recusos para o custeio da operação com qualidade – Luiz Carlos Mantovani Néspoli

sobretrilhos-luiscarlosmantovaniO conhecimento de como ocorreu o desenvolvimento urbano é importante para entendermos a situação dos sistemas de transportes que conhecemos hoje e, principalmente, o que está reservado para as cidades no futuro. A cidade de hoje é o resultado de um longo processo de crescimento ao sabor do mercado imobiliário, da influência da política de estímulo aos automóveis e de pouca dedicação ao transporte coletivo.

Como consequência, as cidades se espraiaram, com uma infeliz separação dos setores residenciais daqueles de atração de viagens. Congestionamentos, poluição ambiental e grandes distâncias a percorrer diariamente, em especial pela população de baixa renda. São externalidades negativas, que tornaram o transporte coletivo ineficiente e de baixa qualidade e que podem comprometer a competitividade das cidades. Só iremos reverter esta situação no longo prazo com o desenvolvimento de planos diretores urbanos, leis de uso e ocupação do solo e planos de mobilidade harmônicos entre si, com uma nova divisão modal mais favorável ao transporte coletivo. No entanto, sem a qualificação deste último, tornando-o mais competitivo e atraente, ao lado de políticas mais restritivas ao automóvel, isso dificilmente será alcançado.

Ao contrário do sistema viário que dá flexibilidade ao uso dos modos de transporte individuais, as redes de transporte coletivo são rígidas, configuradas por itinerários fixos, com pontos de acesso e locais de transferência previamente estabelecidos e escalas horárias que, se não gerenciados adequadamente, não terão condições efetivas para a migração das viagens por automóveis para este sistema.

A qualidade do transporte coletivo é facilmente observada por alguns fatores, que a população identifica facilmente em pesquisas: condições de acesso à rede (capilaridade), horários definidos e regulares, confiabilidade nos tempos de percurso, lotação interna e possibilidade de transferências com redução de custos. Se esses fatores estão atendidos com razoável qualidade nos sistemas metroferroviários, graças suas características de gestão de oferta e controle operacional, o mesmo não se vê integralmente nos sistemas de transporte que compartilham as vias públicas. Daí que hoje se fala na “metronização” dos serviços de ônibus ou de VLT – Veículo Leve sobre Trilhos, o que significa trazer para este sistema o modelo de gestão operacional do transporte sobre trilhos.

Ainda outra questão. A tônica historicamente observada na atuação do Poder Público é a de criar infraestrutura e inaugurar redes de transporte, mas destinando pouquíssima atenção com a gestão operacional, que, em última análise, é o diferencial que irá garantir a qualidade dos serviços. Sem uma adequada monitoração da oferta é muito difícil garantir uma boa prestação de serviço com segurança, pontualidade, regularidade e confiabilidade.

Ainda, sem atenção à manutenção haverá a deterioração e a obsolescência progressiva das instalações, equipamentos e sistemas, como a história infelizmente já demonstrou. Parcerias com iniciativa privada podem contribuir para que isso não aconteça. Desde que tenham recursos para custeio.

Trata-se, portanto, de garantir recursos que cubram os custos operacionais dos serviços além da tarifa, já que esta é definida abaixo dos custos por razões de política social. Da mesma forma que governos devem garantir financiamento para infraestrutura de transporte coletivo, é imprescindível que Estado e sociedade definam novas fontes permanentes para o custeio da operação com qualidade.


Luiz Carlos Mantovani NéspoliEngenheiro e Superintendente da ANTP - Associação Nacional de Transportes Públicos

 

Publicado na Revista SOBRE TRILHOS – Ano 1 – Edição 3

 


 

 

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