Informação e Mobilidade

Menos é mais – Alexandre Pelegi

Menos é mais – Alexandre Pelegi

andre pelegi“É preciso entender que o BRT – Bus Rapid Transit é um excelente meio de transporte para áreas com média capacidade, fluxo de 15 mil a 40 mil pessoas/hora/sentido. Além disso, o transbordo custa caro em termos de danos psicológicos e produtividade aos passageiros. No Brasil, onde há 85% de área urbana, enquanto a média mundial está entre 65% e 70%, falta planejamento com visão sistêmica. Há projetos pontuais, porém não existe continuidade de planejamento”. Quem afirma é o engenheiro de transportes Marcus Quintella Cury, professor e coordenador acadêmico de cursos de MBA da FGV.

Numa matéria publicada em outubro de 2015 no Valor Econômico, Cury reforça o que os técnicos já sabem, mas muitos gestores insistem em ignorar: não há oferta de transportes de alta capacidade (como a malha ferroviária, que inclui o metrô) para atender a grandes demandas de passageiros em todas as regiões de grandes centros urbanos.

Ao invés de sistemas concorrentes, as regiões metropolitanas precisam de sistemas complementares, que incorporem os vários modais numa direção única: o atendimento ao passageiro, se possível com conforto, frequência, regularidade e qualidade.

“…a minoria reclama dos
custos do transporte público.”

Pesquisas que avaliam o transporte coletivo sobre a ótica do usuário apontam recorrentemente que os principais problemas apontados estão concentrados em 4 grandes temas: frequência, preço, segurança e conforto. É curioso que a questão do valor despendido tenha menor peso: a minoria reclama dos custos do transporte público.

A Pesquisa de Percepção de Imagem da ANTP passou a incluir, dentro de seus parâmetros de consulta, o que se convencionou chamar de “acesso ao transporte”. Os deslocamentos diários das pessoas que se utilizam do transporte coletivo não envolvem apenas a utilização de ônibus, trens ou metrô, mas englobam todo o ambiente urbano do entorno do deslocamento. Percebe-se, assim, que não é de hoje que os problemas urbanos colaboram diretamente para o estresse que o indivíduo vai acumulando ao longo de sua jornada diária e que tende a se tornar maior quando acessa o transporte coletivo. Melhorias em outros serviços urbanos podem colaborar com o aumento da qualidade do transporte coletivo – esta é a percepção do usuário.

“O país paga um alto preço pelo
atraso no desenvolvimento da
infraestrutura urbana.”

Já é sabido pelos estudiosos da área que os problemas relacionados ao desenvolvimento urbano acabam tornando as populações mais vulneráveis do ponto de vista social. Segundo levantamento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) realizado em 2010, das dez principais regiões metropolitanas brasileiras, sete apresentavam alto Índice de Vulnerabilidade Social (IVS) no quesito infraestrutura urbana. Dentre as regiões estão São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Curitiba e Salvador.

A conclusão é óbvia: o país paga um alto preço pelo atraso no desenvolvimento da infraestrutura urbana. Diante da evidência – cidades melhores contribuem para um transporte melhor (e vice-versa) –, ganha importância em tempos de crise uma pergunta crucial: estamos conseguindo fazer, com a infraestrutura que (já) temos, o máximo que podemos obter? Muitas vezes, o menos se torna mais.

Por fim e não menos importante: por que não integrar de maneira sistemática e definitiva a participação do setor privado na solução desses inúmeros problemas urbanos, utilizando-se do modelo de parcerias público-privadas (PPPs)?

 

Alexandre Pelegi – Comunicação ANTP
Artigo originalmente publicado na Revista SOBRETRILHOS – Ano 2 – Edição 4

sobretrilhos

Revista híbrida com abordagens jornalísticas e técnicas. A circulação é controlada e dirigida a todos os segmentos de transporte de passageiros e logística. Aposta-se em uma linha editorial que vá além dos trilhos, trazendo informações e conceitos sobre infraestrutura, intermodalidade, urbanização e cidades inteligentes.

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