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Mais uma década sem trens regionais – Jurandir Fernandes

Mais uma década sem trens regionais – Jurandir Fernandes

sobretrilhos-jurandirfernandesMais de cem milhões de pessoas vivem nas regiões metropolitanas brasileiras. Além dos problemas de trânsito e transporte nas cidades dessas regiões, elas também são penalizadas por rodovias saturadas, mesmo após estes anos de recessão econômica. Se o país retomar seu crescimento após 2018, como se espera, teremos sérios problemas nos principais eixos rodoviários brasileiros.

A mobilidade das pessoas cresce a um ritmo maior que o do crescimento do PIB. As viagens para o trabalho, somam-se movimentos por outros motivos, como lazer, compras, saúde e estudos. A pesquisa “Mobilidade na Macrometrópole¹ Paulista”, feita pela Emplasa/Unicamp em 2013, mostra que, na primeira década deste século, a taxa de crescimento da população daquela macrometrópole¹ foi de 1,1% ao ano. Ao mesmo tempo, o número de viagens dentro dela cresceu 5,8% ao ano.

O que pode ocorrer com as nossas quase saturadas rodovias? Tomemos como exemplo o sistema Anhanguera-Bandeirantes, um dos principais eixos rodoviários do Brasil, com cerca de 900 mil veículos o percorrendo diariamente. De Jundiaí a São Paulo, já são 8 faixas por sentido, 3 na Anhanguera e 5 na Bandeirantes. Mesmo com a forte queda de atividades nessa área industrial, essas rodovias mostram tráfego lento em diversos trechos todos os dias úteis. A concessionária que as opera tem cumprido o estabelecido. Obras de ampliação foram feitas, a manutenção, a sinalização e o pronto atendimento são os melhores avaliados do país. As marginais Tietê e Pinheiros e seus acessos também foram recentemente ampliados; os congestionamentos, contudo, voltaram. Diz-se que “estaria pior se nada tivesse sido feito”. O imediatismo e o paliativo andando de mãos dadas.

“Uma das soluções mais óbvias para este caos anunciado é a mudança de paradigma…”

O que fazer perante o cenário de colapso que se vislumbra daqui a menos de 10 anos? Continuar ampliando as rodovias? Vamos implantar novas rodovias paralelas às existentes? Vamos continuar fazendo mais do mesmo?

Uma das soluções mais óbvias para este caos anunciado é a mudança de paradigma: o transporte regional também deve ser feito de forma coletiva. A implantação dos trens regionais é urgentíssima. A ampliação do transporte de carga ferroviário, idem.

Um exemplo que mostra a gravidade da situação: apesar do cenário preocupante quanto à capacidade do sistema Anhanguera-Bandeirantes em dar conta da demanda, não teremos a alternativa de um trem regional entre Campinas e São Paulo nos próximos dez anos. Vejamos o porquê.

O Governo de São Paulo luta para dar conta do seu plano de expansão metroferroviário, com obras em andamento em sete linhas e com duas outras já contratadas. É improvável qualquer folga financeira para novos projetos nesta gestão que termina em 2018. Os novos governos estadual e federal assumirão em 2019 com um orçamento aprovado em 2018 em que não estará incluído o trem regional. Desenhemos então um cenário otimista a partir de 2020: em um ano licitam-se e contratam-se os projetos de engenharia (básico e executivo) e os ambientais (EIA-RIMAS); a SPU – Secretaria do Patrimônio da União – sai da inércia e repassa as áreas ferroviárias ao estado de São Paulo, conforme pedido protocolado há anos naquele órgão; o governo estadual apura o custo das desapropriações para as futuras obras e publica os decretos de utilidade pública assegurando as respectivas áreas.

Em 2023, supondo-se que o funding do empreendimento esteja equacionado, os projetos de engenharia estejam prontos, a Licença Ambiental Prévia obtida e as principais áreas físicas liberadas, iniciam-se as licitações das obras civis. Em 2024, os contratos são assinados e, as obras, iniciadas.

Ao mesmo tempo, dezenas de outras licitações deverão ser feitas para a compra dos sistemas (sinalização, alimentação elétrica, telecomunicações, segurança) e dos trens. Sem contratempos, haverá condições de iniciar os testes dos equipamentos, a contratação e treinamento das equipes operacionais em fins de 2027. Com uma boa dose de otimismo, a operação comercial poderá se iniciar em 2028.

Qual a solução a ser implantada antes de 2028 para o tráfego de passageiros e caminhões que se dirigem diariamente às nossas metrópoles? O que pode e deve ser feito para antecipar o aumento da oferta de transportes antes dessa data?

                                                              Jurandir Fernandes – Vice-presidente honorário da                                              The International Association of Public Transport (UITP)
Originalmente publicado na Revista SOBRETRILHOS – Ano 2 – Edição 5

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Revista híbrida com abordagens jornalísticas e técnicas. A circulação é controlada e dirigida a todos os segmentos de transporte de passageiros e logística. Aposta-se em uma linha editorial que vá além dos trilhos, trazendo informações e conceitos sobre infraestrutura, intermodalidade, urbanização e cidades inteligentes.

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