Informação e Mobilidade

A quem deve servir a cidade? – Alexandre Pelegi

A quem deve servir a cidade? – Alexandre Pelegi

Pelegi_foto_antpÉ comum atribuir-se ao congestionamento o papel de vilão na perda de competitividade de uma cidade. Debita-se na conta do trânsito, com todas as suas externalidades, a principal responsabilidade por situações negativas que impactam a economia. As horas em que as pessoas ficam presas em seus carros passaram a configurar os grandes vetores negativos que denotam, por exemplo, a forte perda na produtividade do trabalho.

Composta por alguns indicadores específicos, o que se convencionou chamar de “competitividade urbana” tornou-se o principal termômetro para o investimento de empresas que desejam se radicar em determinada região, um índice que busca definir, de maneira geral, quais as melhores cidades para se realizar negócios e viabilizar investimentos. Para compor um índice de competitividade dessa natureza é necessário sintetizar as variáveis que as empresas e os seus executivos levam em consideração na tomada final de decisão, que aponta onde e define o porquê de se investir em determinado espaço.

Compõem essa cesta de dados alguns indicadores de estrutura macroeconômica e de política social, que varrem desde medidores da liberdade para se realizar negócios e o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) até dados de governabilidade, conectividade física e capital intelectual. De uns anos para cá outro índice fundamental veio se juntar a esses, o da sustentabilidade ambiental, que abarca quesitos importantes, como as emissões de gases de efeito estufa, a existência de áreas verdes, a competitividade energética e a percepção da população sobre as medidas ambientais adotadas para a preservação do espaço urbano.

“…cuidar melhor das cidades
e de seus moradores.”

No instante em que se inclui a sustentabilidade ambiental para se definir competitividade urbana, o tema da produtividade precisa ser ponderado: até que ponto o benefício econômico de determinada atividade pode comprometer a qualidade de vida de uma cidade?

Com o crescimento exponencial da urbanização, esse desafio cresce a cada dia: os desafios à mobilidade das pessoas (os mais perceptíveis) precisam ser discutidos e resolvidos ao mesmo tempo em que se garantam indicadores de sustentabilidade. O que, em última análise, significa cuidar melhor das cidades e de seus moradores.
Historicamente, a pressão para se resolver problemas urbanos, como os relacionados ao transporte motorizado individual, tem provocado um danoso preço à sociedade ao alocar vultosos recursos públicos para o benefício de poucos. É legítimo questionar, portanto, se os efetivos controle e uso das cidades estão de fato nas mãos do setor público – cujo dever é organizar as principais demandas da sociedade -, ou se estão nas mãos do setor privado, cuja preocupação central é alavancar sua lucratividade.

O grande dilema das nossas cidades está em buscar, de maneira persistente, o necessário equilíbrio entre atividade econômica e sustentabilidade ambiental. Entre oferta de oportunidades econômicas e qualidade de vida para os cidadãos. Entre oferta de bens e serviços de qualidade (saúde, educação, moradia) e geração de boas oportunidades de negócios.

O dinheiro que entra pela boca do caixa proveniente de taxas e impostos é o mesmo que sai para bancar despesas de saúde decorrentes de acidentes de trânsito e da emissão de poluentes. Essa relação entre o dinheiro que recebe do cidadão e o valor que despende para mitigar os efeitos nocivos do uso intensivo do carro, por exemplo, ainda não se dá de maneira integrada nas administrações públicas. Para muitos gestores, são falaciosos os raciocínios como “menos carros nas ruas produzem menos gastos com saúde”.

Infelizmente, o pensamento oficial privilegia o fator econômico, muito mais visível e imediato, e não o fator social e ambiental, ainda difícil de ser interpretado em cifrões. O primeiro produz um ilusório aumento de riqueza, geralmente concentrada nas mãos de poucos. O segundo garante uma melhor saúde pública, preserva vidas e castiga menos as cidades, mas não engorda o PIB, nem alimenta estatísticas econômicas oficiais.

Saber tomar decisões que levem em conta não apenas o benefício econômico imediato, mas principalmente uma cidade mais saudável e humana, é o cerne da missão pública. E é hoje o maior desafio de todo administrador público eleito pelo voto popular.

Alexandre Pelegi – Comunicação da ANTP
Originalmente publicado na Revista SOBRETRILHOS – Ano 2 – Edição 6

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