Informação e Mobilidade

A Hora e a vez do Transporte Público Sustentável – Ailton Brasiliense Pires

A Hora e a vez do Transporte Público Sustentável – Ailton Brasiliense Pires

Por Ailton Brasiliense PiresPresidente ANTP


Foto Presidente da ANTP Ailton Brasiliense PiresQueremos de fato mudar nossa cidade? O cidadão parece resistente quando mudar seus hábitos e seu comportamento social implica de imediato em comprometer-se com o interesse coletivo.

A resistência à mudança tem origem num modelo de cidade que privilegia e estimula o individualismo. Não à toa o maior símbolo de desejo do brasileiro é o automóvel. Famílias medem o status de acordo com o carro que possuem (e ostentam). Com as facilidades para dirigir e manobrar, conquistas da tecnologia, hoje todos podem conduzir carros que se assemelham a caminhões pelo tamanho e imponência.

O resultado é visível a olho nu, nas ruas entupidas e congestionadas, assim como nas vagas de estacionamento de prédios e shoppings, cada vez mais apertadas para abrigar automóveis, a cada dia maiores.

 

Hoje, o que vemos no Brasil é um descompasso gritante entre mobilidade e economia. Enquanto várias cidades do mundo já encontraram formas de compatibilizar a sustentabilidade ambiental à viabilidade econômica, continuamos dependentes de um modelo “fordiano” de produção, ainda enraizado em nossa economia.  E não mudamos porque, segundo ainda se acredita, a indústria do automóvel é essencial para a economia do país. A solução criada por Henry Ford para a mobilidade das pessoas parece não guardar relação de causa e efeito com os danos que provoca, as conhecidas externalidades negativas – emissão de gás carbônico na atmosfera, congestionamentos e acidentes de trânsito.

A escolha do brasileiro pelo automóvel recai em atributos de modernidade – velocidade, conforto, design – que guardam imensa distância de determinantes de sustentabilidade. Mudar o uso excessivo e sem limites do automóvel como “solução de mobilidade”, é fato que não se dará de maneira voluntária, nem através de campanhas educativas. A mudança passa por uma alteração radical que integre objetivos sustentáveis a indicadores econômicos.

A mudança de mentalidade na gestão das cidades, onde se oferecem mais possibilidades de escolha para o transporte das pessoas, paralelamente gerando novos empregos, tem permitido em muitas cidades do mundo a transição do modelo econômico baseado no consumo, para um novo modelo de economia sustentável, de baixo carbono. Enquanto alguns prefeitos brasileiros caminham bravamente em busca de uma cidade mais humana e habitável, enfrentam na contramão a força desproporcional de um modelo arraigado no ícone automóvel, onde a fabricação e a venda persistem em ocupar papel de relevo em nosso modelo econômico.

Mudar a cidade passa por mudar o transporte das pessoas. Glen Weisbord, presidente do Economic Development Research Group, de Boston, produziu um estudo que comprova o que é perceptível no senso-comum: para cada US$ 1 bilhão investido em transporte público nos EUA, existem US$ 2 bilhões de valor agregado ao PIB, incluindo US$ 1,8 bilhão em salários que suportam mais de 41 mil novos postos de trabalho.

“O que é mais factível? Mudar o mundo? Mudar a cidade? O factível está onde a vontade coletiva se organiza e combate.” – Sérgio Magalhães, arquiteto

Indo em outra direção, já se sabe não é de hoje que o uso do transporte público no país reduz brutalmente o consumo de energia, além de produzir enormes benefícios econômicos e socioambientais. O balanço social do Metrô de SP traz números e cifras que comprovam isso, partindo de um raciocínio simples: qual o valor monetário das perdas que a cidade teria caso a rede metroviária não existisse? O último balanço, referente ao ano de 2014, chegou ao valor monetizado de R$ 9,3 bilhões. Somando os benefícios produzidos de 2005 a 2014, o valor acumulado bate em quase R$ 90 bilhões, quantia maior do que o investimento feito na construção de todo o sistema.

Para mudar a cidade é necessário alterar radicalmente a maneira como as pessoas de locomovem. O que significa mudar ao mesmo tempo a maneira como organizamos até hoje nossa economia, deixando para trás um modelo gerador de externalidades negativas que tem tornado as cidades economicamente inviáveis e piores para se viver. Apesar de antigo, o conceito da economia de baixo carbono – em que se procura minimizar as emissões de GEE promovendo, simultaneamente, o desenvolvimento sustentável – é hoje uma realidade que tem no transporte público um aliado essencial de transformação.

Publicado na Revista SOBRE TRILHOS – Ano 1 – Edição 3

 


 

 

 

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